À Espera de um Milagre

À Espera de um Milagre, começa com um velhinho narrando seu passado, o que continua pelas próximas três horas. Ou seja, mais Titanic, impossível. Em tudo nota-se que é uma superprodução convencional: música a preencher os silêncios, fotografia, roteiro e direção sem nenhum ângulo inovador. O pessoal acostumado ao cinema não vai se decepcionar.
O bom moço por excelência Tom Hanks faz um encarregado pelas execuções no corredor da morte, lá pelos anos 30. Ele cuida de uma cadeia com mais guardas que prisioneiros (dá pra ver que o índice de criminalidade aumentou barbaridades desde então). Seu maior problema é um guarda sádico e covarde com costas quentes. Chega um grandalhão acusado de assassinar duas garotinhas, mas basta olhar pra ele para concluir que ele é inocente. Ainda por cima, este gigante tem o dom de curar doenças. Há também um ratinho que meio que se transforma no mascote da prisão. Eu gostei do filme. Chorei, principalmente nas cenas envolvendo o camundongo. Só que À Espera de um Milagre deveria ser encurtado. Existem cenas absolutamente dispensáveis. Por exemplo, precisamos mesmo que um dos prisioneiros diga ao guarda Tom Hanks “você é bom”? Claro que não, o Tom é sempre bom. Também poderíamos sobreviver sem que um outro diga que o bandidão: “ele é mau”. A bandeira não é necessária pra que o espectador perceba o maniqueísmo desde os primeiros momentos. Não é suficiente que sejamos manipulados, temos ainda que receber tudo mastigadinho.
A sequência inteira em que Tom visita o ex-advogado do gigante cai na mesma linha do descartável. Parece que só foi colocada lá para marcar o reencontro entre Tom e Gary Sinise, parceiros em Forrest Gump. A opinião do advogado não acrescenta nada. Faz tempo que sacamos que o grandalhão é a inocência em forma de gente, um homem iluminado, um enviado dos céus.
Todo filme sobre a pena de morte é contra a pena de morte. Não dá pra mostrar algo tão grotesco e legitimá-lo. Hollywood, porém, é pura hipocrisia. Poucas indústrias defendem tanto a pena máxima como esta do entretenimento. Quantos filmes você já viu onde o vilão, depois de aprontar mil e uma, vai para a prisão pagar seus pecados? (Lembre-se que os prisioneiros nas produções de cadeia geralmente não são culpados, são heróis). Prisão é anticlimático, e funciona apenas como castigo a longo prazo. Logo, pra nossa catarse coletiva, o bandido sempre morre de maneira hedionda. E nada de morrer uma ou duas vezes, não. Queremos sangue. Às vezes ocorre assim: vilão leva vários tiros, vira picadinho, explode, cai de um prédio de vinte andares, é atropelado por um caminhão lá embaixo. Quando o mocinho passa por perto, o bandido dá seu último suspiro e ataca o herói, que só então o mata em definitivo. Estamos vingados!. Em À Espera de um Milagre há dois vilões, e ambos são exemplarmente punidos. Parece que a pena de morte é errada por ser aplicada por um governo, mas nada contra fazer justiça com as próprias mãos.
O gigante, muito bem interpretado por Michael Clarke Duncan (indicado ao Oscar de coadjuvante – ele é a alma do filme), é um pouco o retardado de Ratos e Homens, um pouco Frankenstein. Coitado do Michael! Este é seu primeiro papel, e pode-se dizer, o último. Tem uma anedota que conta que o tubarão e o dinossauro de Spielberg reclamam por não poderem fazer Shakespeare, por estarem condenados a um único papel. Com Michael acontece o mesmo. Há mais personagens disponíveis para o ratinho do filme (vide Stuart Little, O Colecionador de Ossos) que para um grandalhão que, além de tudo, é negro.A cena do prisioneiro assistindo a O Picolino antes da execução remete automaticamente àquela dos homens vendo Gilda em Um Sonho de Liberdade. Este outro drama de prisão é um dos clássicos da trágica década de 90. Também foi dirigido por Frank Darabont, também baseado em Stephen King. À Espera de um Milagre é legal, mas prova como é difícil um raio cair duas vezes no mesmo lugar. Tomara que Darabont se liberte para tocar outros projetos.

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