~Vestido Lilás

 

Vestido Lilás

Havia uma viela em uma favela qualquer, nem maior nem menor, com velhos e velhas que velhavam, homens e mulheres que esperavam, e meninos e meninas que nasciam e cresciam. Todos com juízo, suficientemente, até mesmo uma meninazinha que vivia lá. Aquela, que sempre estava com seu vestido lilás.

    Sua mãe mandara-a, com um cesto e um pote, à avó, que a amava, a uma outra viela que como aquela era escura e barulhenta. Vestido lilás partiu, sobre logo, ela a linda, tudo era uma vez. O pote continha arroz doce , e o cesto estava vazio, que para trazer carambolas.

    Indo que a descer o morro, viu só os policiais, que por lá policiavam; mas o lobo nenhum, desconhecido, nem peludo. Pois os policiais tinham exterminado o lobo. Então ela, mesma, era quem dizia: “Vou à vovó, com cesto e pote, de vestido lilás, o tanto que a mamãe me mandou”. A viela e  o barraco esperando-a acolá, depois daquela curva, que a gente pensa que vê, e das horas, que a gente não vê que não são.

    Ela escolheu o caminho mais longo, aquele em que dava voltas e voltas pelos barracos de tantos que havia. Saiu, atrás de suas asas ligeiras, sua sombra também vindo-lhe correndo, em pós. Distraia-se a olhar as nuvens, livre se leves no céu, e a definir-lhes imagens em seus tons de branco e cinza.

    Demorou, para dar com a avó no barraco, que assim lhe respondeu, quando ela, toque, toque, bateu:

    – “Quem é?”

    – “Sou eu…” – e Vestido Lilás descansou a voz. – “Sou sua linda netinha, com cesto e com pote, Vestido Lilás, que a mamãe me mandou.”

    Vai, a avó difícil, disse: – “Puxa o ferrolho de pau da porta, entra e abre. Deus a abençoe.”

   Vestido Lilás assim fez, e entrou e olhou.

    A avó estava na cama, rebuçada e só. Devia, para falar apagado e fraco e rouco, assim, de ter apanhado um resfriado do sereno da manhã. Dizendo: – “Depõe o pote e o cesto na mesa, e vem para perto de mim, enquanto é tempo.”

    Mas agora Vestido Lilás se espantava; e estava suada, com enorme fome de almoço. Ela perguntou:

    – “Vovozinha, que braços tão magros, os  seus, e que mãos tão trementes!”

    – “É porque não vou poder nunca mais te abraçar, minha neta….” – a avó murmurou.

    – “Vovozinha, mas que lábios, aí, tão arroxeados”.

    – “É porque não vou nunca mais poder te beijar, minha neta…” – a avó suspirou.

    – “Vovozinha, e que olhos tão fundos e parados, nesse rosto encovado, pálido?”

    – “É porque já não estou te vendo, nunca mais, minha netinha….” – a avó ainda gemeu.

   Vestido Lilás mais se assustou, como se fosse ter juízo pela primeira vez.

    Gritou: – “Vovozinha, eu tenho medo do Lobo!…”

    Mas a avó não estava  mais lá, sendo que demasiado ausente, a não ser pelo frio, triste e tão repentino corpo, que deixou Vestido Lilás Azul de tristeza.

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Escrevi esse texto num trabalho do curso, com base no texto Fita Verde de Guimarães Rosa.

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