~Enlaivada

Às vezes eu não sou tão poderosa.

O meu brilho tem falhas.

As vezes pego onibus cheia de sacolas, com um guarda-chuva gigante que não fecha.

As vezes minhas roupas ficam manchadas com as tintas que eu uso pra pintar meus sorrisos.

Eu costumo também ter cólica, quando esqueço de comprar os doces.

Costumo não aguentar o tranco e me esconder no armário para uma pausa, eu bato o joelho na porta e falo grandes palavrões.

Eu bebo como homem, porque muitas vezes sustento fardos que não são meus.

Eu faço as unhas enquanto almoço. Você as verá impecáveis, mas nunca pude ir à uma manicure.

Eu leio enquanto escrevo. E acendo incensos de camomila porque é mais rápido que fazer chá.

Eu devo todos os meus sapatos, mas não devo satisfação à mais ninguém.

Eu amo em silêncio. Quem merece sabe.

Eu amo o errado, o pecador.

Eu amo ostras porque aprendi a abri-las.

Me aborreço com muita facilidade, mas quase nunca as pessoas são culpadas, então ninguém precisa se aborrecer comigo.

Eu gosto de brisa, de água.

Eu gosto de banho de chuva no verão e banho de sol no inverno. Mas também gosto de ficar olhando as nuvens escuras dos dias frios e sentir o vento cortar meu rosto.

Eu gosto de dor mais do que de morangos.

Eu não sei escolher entre vermelho e branco.

Eu não sei nadar. Talvez por isso eu sempre acho que vou morrer por não saber lutar.

Adoro a velocidade, adoro correr. É bom sentir que há muito oxigênio. É delicioso o gosto de adrenalina na minha boca, apesar desse gosto ser muito parecido com gosto de sangue.

Mas o melhor é ficar transparente. Ser engolida pela natureza, e se tornar natureza. Deixar de ser individual pra se tornar coletivo, numa alma coletiva. Bom é perder-se na inconsciência e voltar a ser luz, força, vida.

E eu nunca sei a hora de voltar pra casa, pro quente abraço.

Nunca sei como terminar um texto.

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Novembro 2018
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